Um Ateu Em Silos: Uma Abelha De Ouro

Um Ateu Em Silos: Uma Abelha De Ouro

alguns dias depois de atravessar os muros do mosteiro, acredita detectar a grandeza de um homem apenas pela forma que tem de não fazer barulho com a sola do sapato sobre uma pedra de séculos. É uma forma como outra qualquer de desbarrar. Silos gera singulares miragens que encontram acolhimento nas dobras do lóbulo occipital. Alguns hóspedes, que vieram talvez tocados do asa, mas ainda com a certeza de portar um coração de civil, saem dias depois, pedindo passagem com modais de cardeal. Há mesmo quem vai pelos corredores com ansiedade, esperando a chamada divina que lhe seja concedido o visto para entrar para o monge.

O delírio de algumas almas nasce de um orfeão de sonhos absurdos, que eu não sei por que aqui ganha inteiros. O monge mais jovem do lugar, Luis Javier, é um sevilhano, de 32 anos, rápido como o sangue. Antes de ingressar na ordem pisou na rua e discoteca. Terminou Direito com Prémio Extraordinário.

Nos EUA, fez um mestrado em direito Ambiental. Ele voltou para casa e combinou as aulas na universidade com as tardes de picapleitos em um escritório de advocacia. Ganhava bom parné. Morava em um apartamento com vista. Ia em linha reta para se tornar um pollopera de sucesso, crente mas não beato, mundano, com amigos afastados da Igreja e uma existência cor de mel.

Mas, aos 24 anos, ele deu por perguntar algo fatal: “E isso é tudo?”. Qualquer garoto de sua idade assinaria com a metade de seu enxoval acadêmico. Mas ele se lançou a duvidar. Alguém lhe recomendou alguns dias na hospedaria de Silos, por moderar a coisa. E aqui, como um arponazo, deu-lhe não sei que golpe de cierzo e já o viu claro. Ia ser um monge. Leva cinco anos para o mosteiro. É arquiveiro da biblioteca e conhece um a um os sulcos de cada códice iluminado. A caligrafia original de Gonzalo de Berceo. As ranhuras que acumula um insólito rito moçárabe do século XI. Aprendeu alemão para ler a Novalis e Rilke.

Seu melhor amigo é comunista. Aos domingos toca música clássica no refeitório, onde os monges comem sem soltar a peça. Estudou Teologia em Bolonha. Acumula um entusiasmo nuclear e ainda não tem uma única rachadura no espírito. Qualquer dia o maquean para o abade. Lhe pergunto como resumiria em poucas palavras o que é sua vida: “Um caminho de amor, o absoluto. E o absoluto é Ele”. Não lhe treme a voz.

  • 15:10 GODÍN REJEITA A OFERTA DO MANCHESTER UNITED
  • Quarta detenção em Ripoll relacionada com os factos
  • Hummels: “Não pensamos na derrota”
  • 2 Festa dos Cinco
  • o Seu bem-vinda

a maneira do poeta F. W. Schelling, estes médicos estão convencidos de que a vida é uma forma de passar por tudo e não ser nada. Outros não temos a mesma barragem de convicção e se nos nota. Talvez por isso as horas pesam. A manhã pesa. O silêncio pesa.

A espera pesa. E todo este zureo emocional se vive entre bandos de turistas que dão voltas ao claustro, elogiando a sua beleza na tela do telefone, apesar de terem os colchetes na frente. Um show muito pós-moderno. Às vezes parece que as paredes dos templos não são feitas para acolher os fiéis, mas para que eles não escapem.

Embora em Silos você escolhe soberanamente cada um de seus passos. A vida monacal é feita de renúncia, exaltação, amor e fracassos. É uma levedura difícil que rejeita a tentação do desvio, do balançar em direção oposta à das regras, essa forma de volúpia que tanto incentiva uma biografia. Cada religião se apóia em um alimento substancial e uma droga específica. Às vezes você pensa em como seria a sua existência aqui.

Joana

Os comentários estão fechados.
error: